segunda-feira, 28 de abril de 2008

Aliança


Entrei no templo de cabeça feita e sem nenhum arrependimento. Depois de tanto tempo achara minha verdadeira paixão. Havia antes procurado em partes onde jamais a encontraria... ela, que estivera ali, tão perto, sempre, muitas vezes ignorada por mim.
Nas minhas buscas casa afora por semelhante amor nunca tinha parado para pensar em algo assim, tão sutil e quase que sensivelmente imperceptível. Nunca havia dirigido meu olhar ao que verdadeiramente importa... foram anos de sofrimentos vazios, sentimentos ocos manipulados pela minha mente para se tornarem algo que nem em mil anos poderiam vir a ser.
Na verdade, tenho que agradecer a esses sentimentos manipulados. Foi no momento em que me recuperava de mais uma armadilha travada por mim para mim que a idéia foi surgindo aos poucos, logo depois se tornando tão clara que quase cegou meus pensamentos. Meu amor, aquele verdadeiro, não estava fora de casa. Ele estava bem próximo, sempre comigo.
Foi nesse momento de excitação e descoberta que decidi: ia me casar. Saí à rua procurando um anel para selar o compromisso. Não importava se fosse de diamantes, ouro, prata, lata. Decidi-me pelo mais simples que encontrei. Meu amor era singelo, daqueles claros e reconfortantes como a chegada da manhã. Luxo demais só lhe sacaria a beleza, que estava toda em sua pureza e elementaridade.
Entrei no templo de cabeça feita e sem nenhum arrependimento. Sozinha. Demorara a perceber que antes de me abrir para o mundo era necessário comprometer-me comigo mesma. Ergui a mão esquerda e lentamente encaixei a aliança no dedo anular. Não foram necessários votos. Já sabia muito bem a dimensão daquilo que estava acontecendo. Agora eu era minha. Era minha antes de ser dos outros. E aquela aliança invisível iria me acompanhar até o fim.